Bom, pra começar logo essa bagaça, vai aí uma entrevista com o Quique Brown, fiz essa entrevista com ele no início do ano, mas por “empecilhos editoriais” ela ainda não havia sido publicada, então taí!

Quique Brown, o cara garboso da foto, para quem não conhece, é um dos maiores (talvez o maior) agitadores culturais de Bragança Paulista, tendo como carro chefe o festival Cardápio Underground, festival anual organizado desde 2004, que conta com exposições fotográficas e de artes visuais, sessões de cineclube, debates, performances e shows; já passaram pelo palco do Cardápio bandas como Muzzarelas, Forgotten Boys, Biônica, Cólera, Halé, King Khan & BBQ Show, Nerds Attack e Eu Serei a Hiena, só para citar algumas.

Quique também é um dos fundadores da escola infantil de música Jardim Elétrico; e é claro, também vocalista do Leptospirose, banda que desde 2001 vem fazendo um som crú, rápido, criativo e com letras calcadas no dadaísmo.
A banda, que também é formada por Sérginho na bateria e Velhote no baixo (esse ao vivo dá um show a parte com seu baixo) já fez shows em países como Argentina, Uruguai, Polônia, Holanda e Alemanha e em diversos Estados Brasileiros como Rio de Janeiro, Espirito Santo, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Norte, Sergipe, Alagoas, Bahia, entre outras; e traz na bagagem dois álbuns (o primeiro, “Invernada”, lançado em 2006 e o mais recente, “Mula-Poney” em 2008, ambos pelos selos Läjä Records e Caveira da Força), um cd split com o Merda (“Lecker”, lançado em 2007 pela Karasu Killer e também pela Läjä Records) e algumas demos (lançadas de forma independente, todas esgotadas)
Confiram aí meu bate papo com Quique Brown, via msn, em meio a uma chuva monstro, quedas de energia e todos os empecilhos da web 2.0 e da cidade da enchente.

[Conversa iniciada com Quique 06/01/10 17:56:21]

Luan: O Leptospirose foi formado em 2001 na cidade de Bragança Paulista, uma cidade que acredito eu, não há uma “cena” muito grande de rock, hardcore, punk ou qualquer outro “barulho” que seja, como veio a ideia de formar a banda, como se conheceram e tal?
Quique:
Somos amigos de infância, estudamos na mesma escola e tal, na adolescência, enquanto eu e Serginho éramos mais ligados em punk e hardcore, Velhote era mais ligado em metal. Certa vez, com já todos ligados em outros tipos de som: MPB, jazz, progressivo etc. fiz uma viajem, dessas de acampamento jovem, com o Velhote e na volta resolvemos montar uma banda, ensaio aqui e ali, showzinho local, demo em K7, demo em CDR, Läjä Records, Caveira Da Força Discos, shows em outras cidades, Estados, países e por aí vai. Na época em que montamos a banda, a probabilidade de fazermos uma banda de som pesado, levando em conta o que estávamos curtindo em termos de sons e suprimentos … era mínima hahahaha.

Luan: E como foi o processo de gravação do primeiro cd, contato com o Mozine e a Läjä, etc. Já ouvi umas histórias de que vocês passaram um tempo num sítio pra criar as músicas daquele cd, essa história procede?
Quique:
Na verdade essa história do sítio é a seguinte, depois de um lance tipo: “Vamo monta uma banda?”, “Vamo!”, Pegamos os equipamentos e passamos um final de semana no sítio do Serginho e ali nasceram umas 10 músicas. Creio que Lascada na Areia do Invernada tenha sido feita no sítio, mas mesmo assim tenho minhas dúvidas, o resto foram nas demos. O lance com o Mozine rolou quando ele veio pra Bragança com o Merda e nóis tocamos junto, o cara curtiu nosso som e ali nasceu uma parceria e principalmente uma amizade maneirássa!!! Mozine lançou o Invernada junto com um cara daqui, o Cidão da Caveira da Força Discos, gravamos o disco no estúdio El Rocha em São Paulo, amplificadores maneiros, engenharia maneira, tudo maneiro hahhaha!

Luan: E sobre as letras, que são umas paradas totalmente doidas (assim como o nome de algumas músicas), a maioria nonsense total, como é o “processo de composição” das letras da banda? Só você que escreve essas doideiras ou rola umas parcerias com o resto da banda também?

[Conversa interrompida com Quique 06/01/10 18:33:17]
[Conversa iniciada com Quique 06/01/10 18:41:54]

Luan: Deu um piripaque aqui na net hahaha
Quique: hahah
Luan: Vamos continuar…sobre as letras
Quique:
Eu escrevo as letras geral, apenas três, até hoje, foram feitas com amigos de fora da banda. O processo de composição é baseado na melodia da música; nos ensaios fazemos os sons, onde todos participam, a maioria das músicas são feitas por uma pessoa só, e lapidadas nos ensaios, as outras são tipo: “Fiz isso aqui!” E aí o outro chega e põe um outro trecho e o resultado final é aquela bagunça!
Na pirâmide do processo de composição, as letras geralmente, são feitas em penúltimo lugar, a função delas é a de encaixar na melodia e só! Pra não ficar tudo solto tipo aquele sorteio maluco dadaísta, eu tento criar imagens soltas, tipo: “andando descalço, me deparo com um sorvete” (trecho da letra de Oswald Spider, do cd Mula-Poney). Não há nada ali além de uma situação, e isso se pá é legal hehehe…
O final do processo é o nome das músicas, a maioria só aparece na hora de lançar o disco. Hoje na hora do almoço fiz uma letra pra um som; o legal pra ela seria um monte de palavras soltas e aí fiz um calculo com o dicionário na mão com tipo, na primeira fileira do (verso?) quatro palavras uma começando com A, outra com B, outra com C e outra com D sendo que a palavra escolhida foi a primeira não monossílaba do dicionário, na segunda linha do mesmo (verso?) vieram mais quatro sílabas só que desta vez elas eram de uma espécie de segundo escalão ou seja, não era mais a primeira e nem a segunda mas sim a segunda levando em consideração a segunda escala de ordem tipo a primeira era por exemplo EB e a segunda EC, e assim foi, no meio me confundi um pouco nos cálculos, depois do Z faltavam ainda algumas palavras pra fechar a letra e essas foram escolhidas tipo: abre o dicionário e das quatro principais (que ficam em cima) escolhe uma! A música se chama: “Lance matemático feito com um exemplar da 2ª edição do Mini-Dicionário Luft, que foi utilizado pelo sr. Luis Henrique C. Duarte na 8ª série B”, e ela estará no nosso próximo disco que deve ser lançado ainda este ano.

Luan : hahahaha!! Porra, que doideira!
Luan : E sobre a banda em geral, além da música, o que vocês fazem para se sustentarem? Você acha que rola de viver de música aqui no Brasil?

[Conversa interrompida com Quique 06/01/2010 19:25:38]
[Conversa iniciada com Quique 06/01/10 19:44:07]

Quique: Chefe
Luan: Opa
Quique:
Velho, vai cair um temporal das Américas aqui…Tava num correzinho por isso não foi a resposta do trampo … podemos continuar amanhã ou mais tarde; tô indo do trampo pra casa agora!
Luan: No problem; aqui ta caindo mó chuva master também.
Luan: Daqui a pouco Noé passa aqui com a arca em frente de casa
Quique
: heheh logo mais é nóis; até mais!

[Conversa interrompida com Quique 06/01/10 19:55:47]
[Conversa iniciada com Quique 06/01/10 20:42:25]

Quique: Se quiser continuar estou em casa já
Luan: Beleza, vamos de onde paramos de novo; sobre o trampo…
Quique :
Eu e Velhote somos donos de uma escola de música chamada Jardim Elétrico, onde o Serginho da aulas de bateria, além desse trampo escolar, Serginho trampa com uns lances de cenário de filme e teatro. Velhote costuma ganhar uns trocados extra, gravando cds e fazendo shows como músico contratado e eu produzindo uns shows. Viver atualmente de música independente no Brasil sem governo e indústrias pesadas de telefonia celular e petróleo nas costas é meio complicado, as bilheterias são escassas, e os meio de transporte bastante caros e precários inviabilizando geral a possibilidade de se fazer turnês da hora, mas por outro lado, existe uma galera se empenhando geral, fazendo conexões, montando coletivos, agitando espaços e tudo mais, de uma maneira bastante organizada, vide Circuito Fora do Eixo, Casas Associadas, BMA, ABRAFIN e o recentíssimo Toque no Brasil. A maioria das pessoas de dentro do independente que vivem de música certamente não vive só da banda, geralmente, possuem ou trabalham em estúdios de gravação e ensaio, bares, loja de disco, selo, produtoras de vídeo e show etc.

Luan: Ainda mais no meio independente né, onde você na maioria das vezes acaba levando cano dos caras que te chamam pra tocar, e quando recebe muitas vezes não recebe toda a grana prometida, e mesmo recebendo as vezes é a grana pra pagar só o transporte da banda…
Quique
: Bem isso, na maioria das vezes o lance fica geral na margem entre o azul e o vermelho, sangrando animal quando pinta uma segunda feira e você ta na estrada e tem que ficar de bobeira até tipo quinta ou sexta pra fazer o próximo show!

Luan: Mas de uns anos pra cá até surgiu uma lei aí de incentivo a cultura, acho q você até deve conhecer ela melhor que eu, visto que o Cardápio Underground é feito com a ajuda dessa lei, e se não me engano teve também o lance de algumas tours de vocês nesse esquema não?
Quique
: Existem várias leis e editais particulares de incentivo a cultura. Aqui em Bragança rola a “famosa” Lei Municipal de Incentivo a Cultura que da até 15mil reais pra projetos culturais, o Cardápio Underground morde isso aí há três anos, e confesso que para um evento como este ainda falta verba, mas mesmo assim não posso reclamar hehe. E em 2007 quando fomos pra Europa consegui uma verba massa via lei, e com a grana, compramos nossas passagens, e uma série de coisas pro filme.
Levando em consideração que o dinheiro do imposto vem da gente, nada mais justo do que a gente usar! Há uma conversa no meio político local, que dentro do corte da verba anual da cultura em Bragança pro ano 2010 a Lei de Incentivo a Cultura vai cair, o que é uma verdadeira lástima quando sabemos que com (por exemplo) 225mil reais, 15 projetos diferentes poderiam ser beneficiados e que no entanto 1 milhão e meio de reais serão massacrados no segundo mês do ano nas celebrações do carnaval da magia hahha , um verdadeiro tiro de canhão na diversidade!!!

Luan: Você inclusive já chegou a se candidatar na política né, como foi esse lance? você não ganhou, mas qual lição tirou dessa experiência, e pretende se candidatar novamente?
Quique:
Aprendi bastante sobre o jogo político, vi de perto como, porque e pra quem as pessoas votam, e principalmente, como a maioria das pessoas sabem que votar no quadro político que nos é oferecido todos os anos com os velhos políticos e os filhos e sobrinhos deles não vai adiantar em nada, mas mesmo assim votam hehehe
Os eleitores convictos em determinados candidatos (principalmente em eleições municipais), votam pra tirar algum benefício próprio, tipo um emprego público (cargo de confiança) e é assim que o lance vai.
Outra coisa “legal” dessa história política, foi o contato próximo que eu tive com uma campanha eleitoral, pude ver de perto, tocar e sentir tudo aquilo que até então eu tipo pensava (“acho que isso é assim”) e vi com meus próprios olhos, que é pior heheh
A grana rola solta mesmo, votos custando 400, 500 reais cada, jornalistas “imparciais” mordendo geral, empresários apostando suas fixas e você pasmo vendo que depois de 4 anos o cara não vai ganhar nem metade do que ele investiu na campanha com o salário de vereador ou prefeito.
Apesar de eu não ter ganhado, fui muito bem votado, fui o 32° candidato mais votado, de um total de 217, praticamente sem gastar nenhum tostão e sem sair de casa. Muita gente achou, massa essa minha postura “amena” enquanto outros digamos que mais “jogadores” não votaram em mim pois acreditavam que a minha falta de “barulho” significava falta de “vontade política” e por aí vai … no fundo, é um jogo de cartas bem doido, após as eleições todo mundo vinha conversar comigo dizendo “Você tem que se candidatar de novo, teve um puta votação sem fazer campanha” e por aí vai … A cultura está precisando e muito, de representantes nas câmaras e eu penso sim em me candidatar de novo!

Luan: Em 2008 estive aí em Bragança pra conferir o Cardápio Underground (que rolou Nerds Attack, Halé e mais umas bandas que não lembro agora) e o que mais reparei foi como a cidade é pacata e quase cinematográfica; hehehe.. Você deve ser um dos moradores mais conhecidos daí né, pelo seu visual um tanto quanto exótico.
Quique:
hahaha sou bem conhecido sim! Nego das uns rolê por aqui comigo e desacredita. Em bar fashion, bar de quebrada, festa infantil, banco, praça pública, lanchonete, zona rural e tudo mais, sempre tem alguém que eu conheço hahaha

Luan: A tour na Europa mesmo com o fim quase que trágico acabou rendendo um livro e agora um filme né; fale um pouco mais sobre esse filme e em quais locais ele está sendo ou será exibido
Quique
: O filme ta nos finalmentes pra ir pra fábrica, Binho Miranda e Japoneis do Merda seguraram a direção e a Läjä vai lançar em DVD, tamo inscrevendo ele nuns festivais aí e ele já foi exibido em: Goiânia, Uberlândia, São Paulo, Campinas e Bragança; esse ano provavelmente faremos várias exibições dele por aí no maior estilo filme/tour … Como eu vi várias vez o filme, ele pra mim ta meio Chaves, já nas exibições nego ri bastante durante o filme, e isso confundirá um pouco o posicionamento do filme. nas locadoras hahahah

Luan: hahaha …bom, pra começar a encerrar agora, pra você qual foi o lugar mais nonsense que o Leptos já tocou, e qual foi o momento mais foda pra banda e o mais broxante?
Quique :
O mais nonsense foi em Brusque-SC na chácara do seu Nésio, ferragem de bateria verde, amplificadores de estúdio, contrabaixo perdendo radicalmente o volume quando o vocal entrava, cachê no saquinho de moeda e etc .. mas independente disso tudo, o show foi divertido pra caralho e a mulecada pirou horrores!!!
Momento foda tiveram vários, pra mim um dos mais massa, foi no lançamento do Mula-Poney em São Paulo com o Ratos de Porão no Belfiore, som animal, headliner do além, público grande, muito cd vendido etc.
E broxante foi sem dúvida nenhuma o acidente europeu, ver Binho preso na ferragem, Mozine amarrado na maca tendo que ser operado e tudo mais, foi sinistro, mas como disso o chefe, o ser humano é safado bicho, e ao invés de chorar, terminar a banda e etc, nóis tamo aí tudo junto de novo, se divertindo e contado as mais variadas histórias de pescador sobre o ocorrido

Luan: E sobre o ultimo lançamento de vocês, o Mula-Poney, como foi gravar o som todo em um esquema totalmente profissional, ter uma mixagem foda também. e como foi a receptividade da galera com o cd?
Quique :
Logo que saiu o Invernada, Mozine me ligou e disse “Brown, mandei um cd de vocês pro Rafael Ramos e ele gostou, acho que ele topa produzir o próximo de vocês” e dois anos depois Mozine fez a ponte e nóis caímos na cidade maravilhosa fazer o barato que foi gravado ao vivo, com amplificadores alucinados e praticamente zero efeitos, ficamos três dias lá gravando os takes e viemos embora exaustíssimos, mix e máster ficou na mão dele, quando o disco chegou ficamos pirados, creio que o pessoal curtiu legal o álbum

Luan: Eu achei foda o resultado também, mas confesso que na primeira audição odiei por que senti falta daquele efeito toscão no vocal e da bateria mais secona e cavernosa; mas é aquela coisa de costume né, não há nada que você não se acostume…rs
Hoje acho esse cd foda, rock paulera msm!
Quique
: É muito brutal bicho, a batera lá quando nóis tocava ela devagar ficava tipo Pink Floyd e Raul Seixas hahah, o vocal ali é muito horrível bicho, hoje peguei a manhã de fazer aquilo, mas na hora confesso que foi complicado de mais, umas pontadas na cabeça, sensação de desmaio e outros desvios emocionais!!!

Luan: hahaha…é, sei como é isso… Bom, pra finalizar, valeu aí pela entrevista Quique, valeu pela paciência (visto que estamos aqui papeando desde as 19 horas, sem contar antes).
Faça um balanço rápido aí de 2009 e quais os planos do Leptos para 2010?
Quique:
2009 foi legal pra caralho pra gente, gravamos bem no início do ano um som pra coletânea do Tibiu e em seguida fizemos, 26 shows, em 21 lugares diferentes, 13 cidades, 3 Estados e dois países Sul-Americanos (Argentina e Uruguai), lançamos o filme Breaking Brazilian Bones In Europe Tour e nos divertimos pra caralho, em 2010 vamos gravar uma música pro tributo nacional ao The Cramps, lançar o Mula-Pôster, barato monstro no formato A2 com ilustração do Ete na frente e texto maluco do Tibiu atrás, gravar um EP com músicas que fizemos pros alunos da nossa escola, divulgar animal o filme europeu e gravar o susseror do Mula-Poney, valeu total pela entrevista Luan, gostei pra caralho de responder, abração!

Luan: Valeu Quique! Agora vou dormir por que amanhã levanto 5 da matina pra trampar! Hahaha Flw, abrazzz!

[Conversa encerrada com Quique 07 Jan 2010 00:05:10]

Alguns Links:
http://www.myspace.com/leptospirose
http://www.fotolog.com.br/leptospirose
http://twitter.com/leptospirose
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=823672
http://www.fotolog.com.br/rockna9